Arte ao seu serviço

Michael Jackson

David Nordahl, "Michael" - 1999

A pintura acima mostra o finado cantor Michael Jackson em pose semelhante ao “David” de Michelangelo, segurando uma flauta de Pã e um cajado, cercado de querubins que o enfeitam, tudo num clima bucólico e remetendo aos temas clássicos greco-romanos. Poderíamos apreciá-la normalmente e nos impressionarmos pela qualidade da sua execução, não fosse o fato de estar ali representado um famoso pop-star que tantas vezes foi questionado por sua proximidade com as crianças, sendo acusado de molestá-las sexualmente. É claro que o a ato de molestá-las nunca foi comprovado, e muitos acreditam que ele realmente não fez tal crueldade, mas isto faz com que o quadro provoque estranhamento e repugnação.

A obra em questão é de autoria do artista americano David Nordahl (1941). Até o final dos anos 80, ele era um artista reconhecido por suas pinturas de índios Apaches. Em 1988, Michael Jackson,após ver uma das pinturas de Nordahl no escritório de Steven Spielberg, ligou para o artista com o intuito de tê-lo como professor de arte. A partir de então o cantor e o artista criaram um vínculo de amizade e trabalho que durou até 2005. Durante esse período, Nordahl abandou sua carreira para trabalhar exclusivamente como retratista de Michael, tendo feito centenas de desenhos e dezenas de pinturas comissionadas pelo cantor.

Ao ver as obras encomendadas por Michael para Nordahl, comecei a me questionar sobre este tipo de “serviço” que um artista presta. Sabemos que, por muito tempo, a arte esteve a serviço do poder. Imperadores, reis, nobres e a igreja encomendavam obras de arte para propagar sua imagem e seus ideais e para exibir status. Apesar disso, temos exemplos de artistas que, mesmo dentro desta situação, inovavam e se mantinham firmes em seus ideais, subvertendo de certo modo sua função. É o caso de Goya (1746-1828) que pintou a realeza e a nobreza de sua própria maneira, revelando suas verdadeiras identidades.

A Família de Carlos IV

Francisco Goya, "A Família de Carlos IV" -1800-1801

No período da arte moderna, o sistema de arte se reconfigurou, possibilitando ao artista maior liberdade para criar de acordo com sua vontade. O trabalho por encomenda continuou existindo, mas o artista a realizava da sua maneira, muitas vezes gerando conflitos com seu encomendante. Um caso conhecido desse período é a “Batalha do Rockefeller Center”.  Nelson Rockefeller havia encomendado ao artista mexicano Diego Rivera (1886-1957) um mural para o saguão do Rockefeller Center. Incomodado com alguns elementos que Rivera colocou em sua pintura, como o rosto de Lênin, Rockefeller pediu ao artista que mudasse sua obra. Rivera se recusou e teve seu mural destruído (esse fato é bem retratado no excelente filme “O Poder vai Dançar” (1999) de Tim Robbins).

Hoje em dia, me parece que essa valorização da integridade do artista moderno, tido como um ser ligado a sua ideologia, está entrando em extinção, assim como as utopias.

Mas afinal, até que ponto um artista deve anular suas idéias e ideais e seguir a de seu encomendante?

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É Arte

Confirmado: é arte

Paulo Bruscky, "Confirmado: é arte", 1977

Para inaugurar este blog, resolvi escrever sobre um dos assuntos mais discutido em arte: sua própria definição.

“O que é arte?” Muitos já se fizeram essa pergunta e podemos encontrar respostas bem variadas para ela (muitas dessas respostas foram reunidas por Frederico Morais num livro intitulado Arte é o que eu e você chamamos arte: 801 definições sobre arte e o sistema da arte).

Na verdade, a definição de arte foi se modificando com o passar do tempo e a fronteira da arte foi se ampliando cada vez mais.

Consideramos como as primeiras manifestações artísticas as pinturas e esculturas feitas no período pré-histórico. Hoje sabemos que essas obras tinham uma função mágica e eram apenas parte de algum ritual. O mesmo acontece com o que denominamos de arte primitiva, como a indígena e a africana. Seus objetos ritualísticos ou utilitários hoje adquirem status de arte, mas para quem os produziu, este status e o próprio conceito de arte não existiam.

O conceito de arte surgiu na Grécia antiga com a palavra “tekné” (técnica), relacionado ao fazer e às habilidades técnicas. Nesse momento, os instrumentos de encarnação mágica transformaram-se em meros símbolos. A partir de então, a arte foi definida como algo que se desprende, que contrasta com a realidade, diante da qual devemos trocar nossa atitude anestesiada de relação com o mundo por uma atitude de contemplação e interpretação.

Dando um salto cronológico, nos anos 60 e 70 do séc. XX houve uma proposição dos artistas em aproximar mais a arte com a vida, convidando o observador a ter uma atitude não mais de contemplação e sim de participação. Os limites da arte foram tencionados e ela poderia ser encontrada no cotidiano ou ser feita a partir de objetos comuns.

Esse fato gerou um enigma para o filósofo norte-americano Arthur C. Danto. Em seu livro A transfiguração do lugar-comum, ele tentou resolver a questão do que diferencia uma obra de arte de um objeto comum indiscernível visualmente da mesma. Concluiu que uma obra de arte pode ser feita a partir de qualquer objeto, mas deve conter certos atributos indispensáveis como metáfora, expressão e estilo.

Finalizando, cito a definição de arte colocada por Lúcia Santaella num simpósio ocorrido no Paço das Arte em outubro de 2009: “Arte é aquilo produzido pelo desejo (sentido psicanalítico) de alguém. O que move a vida”.

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